segunda-feira, 25 de maio de 2015

ENFRENTAR A POBREZA É ENFRENTAR A INJUSTIÇA SOCIAL

“Em alguns momentos foi difícil ouvir as histórias e ver as lágrimas de algumas mulheres apoiadas pelas educadoras do Programa Urbano. Mas Foi enriquecedor constatar que essas lideranças, que já passaram por situação de pobreza extrema, transformaram suas vidas e agora colaboram para transformar a vida dos outros.”


Andrés Gomez de la Torre, Chefe de Programas Internacionais de CAFOD - Agência Católica para o Desenvolvimento, Internacional da Inglaterra e País de Gales, esteve no Brasil na semana passada. Durante três dias, percorreu algumas comunidades e grupos, beneficiárias do Programa Urbano e pode constatar o tamanho da contradição ainda existente no Brasil, a sétima maior economia do planeta, no coração de São Paulo, a cidade mais rica do país. A favela Jacareipe, na Av. do Estado é um exemplo. Para chegar em algumas moradias, percorremos túneis sem ventilação, iluminados por lâmpadas, pois a luz do sol não entra. Neste local as famílias que habitam o subterrâneo da favela, estão correndo sérios riscos, pois a viga, que sustenta 15 mil litros de água da caixa, está cedendo. Esta favela, que ocupa uma área mista  (parte do terreno é da prefeitura e a outra parte da construtora Ibitirama) pegou fogo há 13 anos, na época foi construído um alojamento provisório de dois andares, para abrigar as famílias que perderam suas casas. De lá para cá outras famílias, sem-teto, foram ocupando por cima e virou um emaranhado insalubre e de alto risco. Não existe rota de fuga. Não existe ventilação. Meio dia se apagar a luz é noite. Os educadores do PU, junto com  as lideranças locais, vêm lutando junto ao poder público, em busca de providência urgente para a situação.  

Os dramas humanos não são poucos numa cidade grande e desigual como São Paulo. Mas existem também muitas histórias de resistência e solidariedade. Nas cooperativas de catadores de material reciclável, na cooperativa de alimentos Pão e Arte, a organização para o trabalho, educação da comunidade e a contribuição para a preservação do meio ambiente. Na Ocupação São João, 288, tristeza e lágrimas de quem foi abandonada grávida,  junto com a alegria da acolhida  e solidariedade das famílias organizadas na luta pelo direito à moradia. Uma conta que finalmente teve a oportunidade de fazer o transplante de rim. Outro casal declara o sonho de realizar a cerimônia de casamento  dentro da ocupação, pelo significado que o espaço ganhou em suas vidas. Ficaram para trás os dias de sufoco. Vieram do norte, dormiram em um colchão de berço no chão, sentindo as baratas passando por cima deles. Agora, na ocupação, moram com dignidade, próximo ao trabalho. O fantasma é outro, a reintegração. A diferença agora é que ninguém mais está sozinho e aprenderam que têm direitos fundamentais garantidos pela Constituição. Juntos, organizados, têm mais condição de exigir  do poder público o cumprimento desses direitos. 


Em todas as conversas durante a visita, a esperança de uma moradia digna, trabalho, educação, saúde.  De preferência tudo isso perto do trabalho.  Esse sentimento de vitória pode ser compartilhado nas histórias de famílias da favela Vergueirinho, que já passou por urbanização, com remoção de         quem estava nas áreas de risco, para prédios construídos no mesmo local; contensão de encostas com muros de arrimo; abertura e calçamento de ruas. Nos conjuntos Condomínio Victor Toma Mastorozo, e Brotas mais “causos” cheios de graça e alegria, de pessoas que já conquistaram suas moradias definitivas, depois de anos de luta.

No quintal da educadora Terezinha Silva, um belo exemplo de que cada cidadão pode fazer a sua parte no enfrentamento às mudanças climáticas. Em cerca de 30 metro quadrados de quintal, ela e o marido mantêm uma horta viçosa. A terra que aduba a horta é produzida no minhocário. São três caixas: na primeira o lixo orgânico (restos de cascas, etc) alimenta as minhocas, a terra rica é recolhida na segunda caixa  e o chorume (aquela aguinha presta) na terceira. Por incrível que pareça não tem nenhum odor.  Tudo será reciclado na horta. Para aguar as plantas foram construídas cisternas, que acopladas à calha do telhado reservam a água de chuva, que também serve para lavar banheiros e quintal. Toda essa experiência tem sido multiplicada nas favelas e comunidades onde o Programa Urbano atua, com o apoio da Cartilha.  Também já foi levada para outros municípios e até outros países através de inúmeras reportagens de diferentes veículos de comunciação.

Na reunião de avaliação da visita, que  reuniu a equipe de educadores, coordenação e os representantes de As representantes CAFOD, Emily Muville e Cecília Iório,  Andrés Gomez de la Torre  afirmou que “Em alguns momentos foi difícil ouvir as histórias e ver as lágrimas de algumas mulheres, apoiadas pelas educadoras do Programa Urbano. Mas Foi enriquecedor constatar que essas lideranças, que já passaram por situação de pobreza extrema, transformaram suas vidas e agora colaboram para transformar a vida dos outros.” 

É consenso para o grupo que enfrentar a pobreza no Brasil, uma potência econômica, a sétima maior economia do mundo, é enfrentar a injustiça social, que concentra a riqueza nas mãos de 10% da população, enquanto o país, apesar dos avanços dos últimos 15 anos, ainda mantém milhões abaixo da linha da pobreza.

Andrés avaliou como uma grande riqueza do povo pobre brasileiro, a organização para a luta, um capital social. “ Essas experiências de luta do Brasil precisam ser compartilhadas. Em muitos países programas sociais como o Bolsa Famílias não existem nem no sonho.” afirmou Andrés. Ele teve tempo de ver de perto uma manifestação de representantes de milhares de famílias que ocupam imóveis abandonados, do centro da Capital e que estão ameaçadas de despejo.

O programa está desenvolvendo  o projeto “Promovendo Uma cidade Inclusiva e Sustentável” em São Paulo. A realização é da parceria entre Apoio – Associação de Auxílio Mútuo e MDF – Movimento de Defesa dos Favelados,  com apoio de CAFOD -  a Agencia Católica para a Cooperação Internacional de Inglaterra e País de Gales e financiamento da União Europeia. 





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